Tradição retorna com força nas ruas cariocas
A Copa do Mundo transcende o universo das competições esportivas no Brasil. Além dos clássicos encontros familiares em volta da televisão e das discussões sobre placar nos ambientes de trabalho, outra prática ganha espaço novamente: a ornamentação de vias públicas para celebrar o torneio mundial. Com fitas verde-amarelas, tintas, retratos de atletas e ícones da cultura nacional, cada vez mais ruas ganham um visual festivo que marca presença nas cidades.
Morro do Pinto: Quando a comunidade pinta junto
No Rio de Janeiro, diferentes bairros vivenciam esse movimento de forma intensa. Na região do Santo Cristo, no coração da cidade, moradores da Rua Capiberibe uniram-se em torno de um objetivo comum: reviver as memórias dos tempos de Copa para as gerações mais novas que não tiveram essa vivência. Isabel Boechat, coordenadora do Centro Cultural Capiberibe 27, liderou as iniciativas.
O processo foi gradual e orgânico. “A rua foi entrando no clima aos poucos: moradores ajudando, crianças pintando, famílias acompanhando, gente chegando para ajudar, colaborar de alguma forma”, descreve. Aquilo que começou como uma ação artística evoluiu para algo muito mais amplo. “Hoje a minha avaliação da ação é que não foi uma ação feita “para” a comunidade, foi feita com a comunidade. Em algum momento, deixou de ser só uma pintura e virou encontro, convivência, pertencimento”, acrescenta.
A mobilização extrapolou as fronteiras do bairro. Residentes do Morro da Providência, do próprio Santo Cristo e de outras localidades da zona portuária participaram da decoração. O financiamento saiu do bolso coletivo: doações de vizinhos, amigos e apoiadores diretos do espaço cultural, com o Centro Cultural Capiberibe 27 contribuindo significativamente com suprimentos. Comerciantes locais garantiram mantimentos e recursos adicionais, enquanto as crianças recebiam almoço, picolés e petiscos durante toda a atividade.
Para Boechat, o essencial não residia na precisão técnica, mas em colocar os pequenos como protagonistas da festa. O objetivo era despertar essa consciência coletiva e unir todos em celebração. “Elas [as crianças] pintaram, imaginaram, colocaram cor na rua. E isso tem uma força muito grande, porque talvez no futuro elas lembrem: ‘eu pintei a minha rua para a Copa’. Era isso que a gente queria entregar para elas. E acho que conseguimos”, finalizou.
Inspiração que se multiplica
O trabalho realizado no Morro do Pinto reverberou por outras regiões da capital. Silvio Rosa, estudante de 21 anos morador do Morro do Turano na zona norte, viu na escadaria do Morro do Pinto uma fonte de inspiração para suas próprias iniciativas. Ele mesmo nunca havia participado de embelezamento viário para Copa, mas resolveu organizar um evento de arte grafitada pensando especialmente nas crianças de sua comunidade no Rio Comprido.
Sua trajetória, porém, enfrentou obstáculos. Semanas após conceber a ideia, Silvio conheceu o “Meu Beco na Copa”, concurso promovido pelo projeto Favela Radical, e decidiu inscrever a Alameda Manoel Costa. A resposta inicial da comunidade, contudo, não foi encorajadora. “A gente não teve muito apoio das pessoas da Alameda e da comunidade. Na verdade, teve muita desconfiança, pessoas falando que a gente não ia conseguir”, relata. Apesar de procurar vizinhos solicitando materiais, Silvio encontrou resistência inicial.
A tradição de decorar vias públicas para Copas representa, para muitos brasileiros, mais que uma expressão de patriotismo futebolístico. Constitui um mecanismo de coesão social, especialmente em contextos onde a mobilização comunitária é essencial para gerar transformações visíveis do espaço compartilhado. O movimento no Rio demonstra como essas manifestações funcionam como catalisadores de encontros entre gerações e como veículos para resgatar pertencimento e identidade local.
Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.
