Crise política se agrava com prisões de manifestantes

A Bolívia ultrapassou o primeiro mês de mobilizações sociais nesta sexta-feira (5 de junho), com a situação política tornando-se cada vez mais tensa. Aproveitando o contexto de instabilidade, as autoridades intensificaram prisões de organizadores dos protestos, acusando-os de delitos como terrorismo e incitamento a atividades criminosas.

Entre as detenções realizadas estão a ex-senadora Simone Quispe, integrante do partido MAS de orientação esquerdista, além de Justino Apaza, que comanda a Federação de Conselhos de Bairros de La Paz, e Yesenia Varga, ligada à Federação Carrasco de agricultores em Cochabamba. Organizações sociais denunciam que as capturas funcionam como “sequestros”, exigindo a liberação dos detidos.

A prisão de Quispe, ocorrida na quarta-feira, ganhou repercussão pelo relato de familiares. Segundo comunicado divulgado em redes sociais, indivíduos sem identificação invadiram a residência da ex-parlamentar, a subjugaram e a colocaram à força em veículo sem placa de identificação, sem apresentar documentação legal para tanto.

Mobilizações massivas e debilidade do governo

O governo de Rodrigo Paz, de orientação direitista, completará seis meses no poder sob constante pressão de setores diversos da sociedade boliviana. Camponeses, indígenas, docentes, mineiros e outras categorias profissionais mantêm mobilizações que demandam sua saída do cargo, após duas décadas de administrações de esquerda no país.

Os protestos originaram-se de reclamações sobre a qualidade do combustível fornecido pelo Estado, mas ganharam proporções maiores com a aprovação de legislação sobre propriedade de terras. Agricultores de menor escala argumentam que a lei favorece empresas do agronegócio em prejuízo de pequenos proprietários, acirando tensões sociais.

Consequência direta das paralisações, mais de 80 bloqueios em rodovias espalhadas por departamentos estratégicos — notadamente ao redor de La Paz, mas também em Cochabamba, Potosí, Oruro, Santa Cruz e Chuquisaca — provocaram desabastecimento progressivo em diversos pontos do território. Combustíveis, alimentos e medicamentos tornaram-se artigos escassos nas regiões afetadas.

Clayton Cunha Filho, professor especializado em ciência política pela Universidade Federal do Ceará, avaliou o cenário para a Agência Brasil como “instável e imprevisível”. Segundo o analista, enquanto populações urbanas sofrem com inflação de alimentos e falta de produtos básicos gerados pelos bloqueios, os setores mobilizados declaram disposição de manter as ações até conseguirem a renúncia presidencial. Soma-se a isso a possibilidade iminente de decretação de estado de exceção, medida que elevaria significativamente o nível de repressão estatal.

A Procuradoria solicitou ainda prisões de Vicente Salazar, vinculado à organização Los Ponchos Rojos e à Federação de Camponeses Túpac Katari, e de Mario Argollo, presidente da Central Operária da Bolívia (COB), maior central sindical do país. Argollo afirmou que entraria na clandestinidade caso fosse perseguido. O judiciário boliviano revogou ambos os pedidos de captura. A COB, por sua vez, publicou nota alertando contra o retorno de práticas de perseguição a lideranças sociais.

Contexto: A escalada repressiva ocorre simultaneamente ao apoio político oferecido pelo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, ao governo boliviano, dinâmica que alimenta debates sobre a influência externa no contexto de crise interna do país andino. Os próximos movimentos do Legislativo boliviano, discutindo lei de exceção, e as posições de dois ministros que renunciaram ao cargo, configuram variáveis que seguem moldando o desenvolvimento da crise política.

Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.