Classificação como terroristas entra em vigor
A administração Trump efetivou nesta sexta-feira (5 de junho) a designação de duas facções criminosas brasileiras — Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) — como entidades terroristas. A determinação, previamente comunicada em 28 de maio, abre espaço para uma série de desdobramentos que preocupam autoridades de Brasília.
O executivo brasileiro manifestou resistência contundente à medida. Segundo o Palácio do Planalto, a decisão oferece pretexto para que Washington amplie sua interferência em questões internas brasileiras sob o argumento de combate ao terrorismo. O país sustenta que o enfrentamento ao crime organizado deve ocorrer por meio de instrumentos de colaboração internacional que respeitem plenamente a autonomia de cada nação sobre seu território.
Analistas ouvidos pela reportagem veem a ação como tentativa de reduzir a soberania nacional e alertam para o risco de justificar futuras ações diretas contra o Brasil. Para o governo e especialistas consultados, as consequências potenciais afetariam múltiplas áreas da economia — desde o turismo até o sistema financeiro, passando por investimentos e comércio exterior.
Contexto de pressões comerciais e geopolíticas
A designação terrorista integra uma estratégia mais ampla da Casa Branca. O governo Trump já havia classificado cartéis mexicanos e organizações criminosas de Venezuela, Equador e Colômbia da mesma forma. Em março, Washington instituiu a coalizão “Escudo das Américas”, que reúne nações ideologicamente alinhadas ao governo norte-americano, teoricamente para combater o tráfico de drogas, mas também visando reduzir a influência econômica de potências rivais como China e Rússia na região.
A tática de vincular segurança a objetivos comerciais não é nova na diplomacia de Trump. O combate ao narcotráfico foi invocado para justificar ações contra Nicolas Maduro, ex-presidente da Venezuela, além de pressões exercidas sobre o México — movimentos que a presidenta mexicana Claudia Sheinbaum denunciou como ingerência estrangeira.
Apenas quatro dias após anunciar a classificação das facções brasileiras, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA recomendou à Casa Branca a aplicação de tarifa de 25% sobre importações do Brasil, alegando práticas comerciais desleais. O mesmo documento criticou o Pix, argumentando que o sistema de pagamentos brasileiro prejudica concorrentes norte-americanos como Visa, Mastercard e WhatsApp Pay.
Nos dias subsequentes, Trump sinalizou intenção de taxar produtos de 60 países, incluindo o Brasil, com tarifas adicionais de 10% a 12,5%, desta vez sob a justificativa de combate ao comércio de itens produzidos com trabalho forçado. Brasília rejeitou as argumentações, apontando que funcionam como cobertura para medidas protecionistas unilaterais.
O Itamaraty indicou a possibilidade de recorrer à Lei de Reciprocidade, que autoriza o Brasil a implementar contramedidas comerciais contra países e blocos que instalem obstáculos unilaterais aos produtos brasileiros no mercado internacional.
A sequência de ações — designação terrorista, críticas ao Pix e ameaças tarifárias — revela estratégia coordenada que combina segurança, tecnologia e comércio. Os próximos passos da administração Trump e respostas diplomáticas e comerciais do Brasil prometem delinear as relações bilaterais nos próximos meses.
Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.
