Contradição na diplomacia nuclear
A administração Trump acaba de expor uma flagrante inconsistência em sua estratégia nuclear internacional ao selecionar a Arábia Saudita como parceira em um acordo de cooperação energética atômica de longa duração, orçado em bilhões de dólares. Enquanto Washington confronta o Irã e demanda o encerramento de seu programa de enriquecimento de urânio, abre simultaneamente as portas para que a monarquia saudita desenvolva capacidades similares.
O pacto, ainda não divulgado em sua integralidade, necessita aprovação do Congresso americano. Os termos garantem que o reino árabe poderia avançar no enriquecimento de urânio, embora autoridades afirmem que tal atividade seria exclusivamente para fins civis. Teerã, por sua vez, sustenta posição equivalente sobre suas próprias iniciativas nucleares.
O panorama se complica com recentes tensões diplomáticas. Após críticas de Israel sobre o acordo nuclear, Trump utilizou redes sociais para condicionar a parceria à assinatura de Riade dos Acordos de Abraão. Esses tratados obrigam nações árabes a reconhecer Israel independentemente de resoluções sobre a questão palestina. Os sauditas, contudo, afirmam que só aceitariam tais acordos mediante garantias para a criação de um Estado palestino—posição rechaçada pelo governo Netanyahu.
Questionamentos de especialistas
Francisco Carlos Teixeira da Silva, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, interpreta o acordo como tentativa de restaurar confiança em Washington após perda de credibilidade. “Isso é um reconhecimento da falência do ‘escudo americano’. Tudo isso se dá em meio a um bombardeio pesado do Irã contra a Arábia Saudita. Agora os EUA sugerem que os sauditas podem ter armas nucleares e, com isso, poderiam responder ao Irã com armas nucleares”, afirmou à Agência Brasil.
A Associação de Controle de Armas dos EUA levanta preocupações substantivas. Riade recusa-se a assinar protocolo adicional com a Agência de Energia Atômica Internacional (AIEA) que permitiria inspeções surpresa. Especialistas apontam que comportamentos da liderança saudita sugerem ambições mais amplas: autoridades manifestaram interesse em ciclo de combustível completo, desde extração até reprocessamento—padrão incomum para iniciantes em energia nuclear.
A mesma organização ressalta que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman afirmou em 2018 que buscaria armamento nuclear caso o Irã obtivesse acesso a uma arma atômica. O pacto com Washington enfraqueceria a posição negociadora americana frente a Teerã, na avaliação da entidade: “Fechar um acordo com a Arábia Saudita antes de resolver a questão nuclear iraniana seria insensato e míope”.
Roberto Goulart Menezes, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília, salienta que embora Riade tenha assinado o Acordo de Não Proliferação de Armas Nucleares, a parceria envia sinais contraditórios à região: “É alarmante porque, embora haja um compromisso para enriquecer o urânio para fins pacíficos, o fato é que, na trajetória do programa nuclear da Arábia Saudita, pode haver outros interesses no futuro que sejam diferentes do ponto de partida. Isso aumenta as incertezas na região”.
O acordo permanece em análise pelo legislativo americano enquanto a comunidade internacional observa como Washington equilibra suas prioridades geopolíticas no Oriente Médio—particularmente considerando competição com o Irã, alianças com Israel e relações com monarquias do Golfo Pérsico.
Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.





