Recuo do governo após mobilização massiva
A pressão das ruas conseguiu o que a oposição parlamentar não havia conseguido: frear a agenda de liberalização de vendas de terras para estrangeiros no país. O governo argentino de Javier Milei retirou da votação do Senado, prevista para esta quinta-feira, o projeto que ampliaria os limites para que proprietários do exterior adquirissem terras locais, cedendo à mobilização que reuniu setores díspares da sociedade.
O recuo ocorreu sem apoio garantido no Senado e diante de manifestações de alcance expressivo. O governo, no entanto, manteve programada a votação de iniciativa correlata que autoriza a venda de áreas de proteção ambiental atingidas por incêndios.
Qual era o projeto que causou tanta mobilização
A iniciativa buscava ampliar de 15% para 25% a parcela do território de cada província que poderia estar sob controle estrangeiro. Embora mais moderado que a proposta original — que pretendia eliminar qualquer teto — o texto ainda provocou reação contundente da população.
A defesa do governo era que as restrições atuais dificultavam a atração de investimentos internacionais. Milei já havia tentado contornar a questão ainda em seu primeiro mês de mandato, em dezembro de 2023, por meio de decreto presidencial, mas o Poder Judiciário suspendeu a medida.
Apelidado de “estrangeirização das terras argentinas”, o projeto mobilizou uma coalização improvável. Governadores de todas as correntes políticas, artistas conhecidos nacionalmente como Lali Espósito (com 11,9 milhões de seguidores em rede social), Milo J e Nicki Nicole (que conta mais de 22 milhões de seguidores em plataforma única), além de jogadores da seleção argentina, incluindo o zagueiro Lisandro Martinez, saíram às ruas ou declararam oposição.
O papel das Malvinas na mobilização
A lembrança do conflito dos anos 1980 entre Argentina e Inglaterra pela posse do arquipélago no extremo sul do continente funcionou como catalisador emocional para a reação. Hernán Hougassian, ambientalista e professor de agronomia da Universidade de Buenos Aires, identificou como ponto de inflexão o momento em que os jogadores da seleção levantaram faixa com a inscrição “as Malvinas são argentinas” na semifinal contra a Inglaterra — ocorrida um dia antes da tentativa de votação do projeto no Senado.
“Essa frase surgiu no exato momento em que o governo de Milei buscava aprovar essa lei autorizando a compra de terras por estrangeiros em nosso país; ou seja, bilionários estrangeiros poderiam vir e comprar terras argentinas sem qualquer limite”, refletiu Hougassian sobre o timing da mensagem.
Organizações como o Centro de Ex-combatentes das Ilhas Malvinas (Cecim La Plata) aproveitaram a sensibilidade da questão para convocar protestos com palavras de ordem que relacionavam soberania territorial e nacionalismo: “As Malvinas são argentinas, e todo o território também”.
A política por trás do recuo
O analista político argentino Leandro Gabiati explicou que emergiu uma “grande maioria politicamente transversal” capaz de gerar pressão decisiva sobre o Senado. Essa coalizão mobilizou até mesmo rachas internos no governo, com a vice-presidente Victoria Villarruel posicionando-se contrária ao projeto.
“Quando se coloca um tema sensível como soberania e como presença estrangeira comprando terras e ocupando território nacional, logicamente trata-se de um assunto sensível politicamente”, avaliou o especialista sobre a reação em cascata.
O episódio revela como questões ligadas à integridade territorial mantêm ressonância profunda na Argentina, capaz de unir atores políticos e culturais que frequentemente operam em esferas distintas. O adiamento da votação, no entanto, não encerra o debate: o governo sinalizou disposição para retomar a pauta em momento mais oportuno.
Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.





