Divergências no Congresso sobre relação com Washington

A tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos dominou discussão na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (12). O assessor especial da presidência, embaixador Celso Amorim, e parlamentares da oposição apresentaram interpretações radicalmente distintas sobre as causas dos atritos bilaterais recentes, incluindo as medidas tarifárias impostas pela administração Trump.

Amorim sustentou que Washington busca subordinar a América Latina aos interesses próprios por meio de ações unilaterais. O embaixador citou um vídeo divulgado pela diplomacia estadunidense na terça-feira (11), lido pelo representante dos EUA no Panamá, como evidência dessa postura. “Quem tiver visto o vídeo que foi divulgado ontem pelo Departamento de Estado, e lido pelo embaixador dos EUA no Panamá, verá que o que se quer fazer justamente é relativizar a soberania dos países latino-americanos em geral. Inclusive, naturalmente, o Brasil”, afirmou.

De acordo com o assessor presidencial, o chefe do Executivo mantém posição inflexível neste cenário. “O presidente Lula tem sido firme em reiterar que não aceitaremos que medidas unilaterais sejam utilizadas como pretexto para relativizar a soberania nacional ou impor constrangimentos econômicos para o nosso país”, ressaltou Amorim.

Oposição responsabiliza gestão federal

Deputados de oposição adotaram narrativa diferente, apontando rumos da política externa brasileira como determinantes para o agravamento das relações. O presidente da comissão, Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP), associou a postura ao posicionamento do Brasil no grupo Brics. “A atual conversão do Brics em uma linha de frente anti-ocidental demonstra um padrão sistemático de anti-americanismo, que priorizou o debate retórico e a vaidade pessoal em detrimento do pragmatismo comercial estratégico do Estado brasileiro”, declarou.

O parlamentar solicitou ainda que o Itamaraty agilize a concessão do visto diplomático para Daniel Pérez, indicado pela Casa Branca como embaixador no Brasil. A demora na aprovação provocou resposta americana: Washington cancelou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti.

Marcel Van Hatten (Novo-RS) também criticou a gestão, argumentando que o Brasil cometeu agressão contra a soberania estadunidense. O deputado mencionou especificamente o bloqueio de contas de empresas americanas relacionado ao caso da rede social X, que se recusou a cumprir decisões judiciais brasileiras. “O que nós estamos vendo é uma agressão brasileira à soberania americana. Dizer que o tarifaço não tem relação com o que o Brasil está fazendo com os EUA é maquiar os fatos”, afirmou.

Amorim rebateu a caracterização ideológica dos desentendimentos, reafirmando disposição de Brasília para negociações com qualquer governo, independentemente de alinhamentos políticos. Segundo o embaixador, o governo federal decretou moratória na concessão de vistos diplomáticos a representantes de qualquer nação até as eleições de outubro. Amorim qualificou como “bizarra” a divulgação antecipada do nome do indicado americano sem consentimento prévio do Itamaraty, contrariando protocolos internacionais.

O assessor presidencial observou que Washington funcionou mais de um ano e meio sem embaixador em Brasília após saída da representante do governo Biden, operando apenas com encarregado de negócios. “De repente, na proximidade das eleições, às pressas, sem o nosso consentimento, querem creditar outro embaixador”, comentou. Para o governo, essa movimentação integra tentativa de interferência nas próximas eleições brasileiras.

O desentendimento reflete divergências estruturais sobre as origens da crise diplomática que escalou com medidas protecionistas americanas. Enquanto a gestão federal enfatiza pressões externas e ingerência política, a oposição responsabiliza escolhas brasileiras na política externa pelos efeitos econômicos sofridos.

Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.