Ambiente molda evolução de galáxias
O contexto cósmico em que se localizam as galáxias em transição exerce influência direta sobre sua estrutura e aparência. Aquelas que se desenvolvem isoladas no Universo preservam suas características originais por períodos mais prolongados. Já as que integram agrupamentos celestes experimentam alterações mais significativas em sua morfologia.
Durante a fase de transição, as galáxias deixam de produzir novas estrelas e passam a apresentar formas cada vez mais elípticas, abandonando gradualmente o padrão espiral. O disco externo, onde ocorre a formação estelar, torna-se mais atenuado. A região central, que concentra as estrelas mais antigas, ganha destaque e proeminência. Galáxias localizadas em grupos podem chegar a apresentar contornos deformados, provavelmente em decorrência de interações e fusões com vizinhos próximos.
A conclusão pertence a um levantamento divulgado em março na revista científica The Astrophysical Journal. Gissel Montaguth, astrofísica colombiana que realiza pós-doutorado no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) com auxílio da FAPESP, coordenou o trabalho. Segundo ela, “as galáxias de transição apresentam uma forte assinatura do ambiente de que fazem parte”.
Dados de mapeamento celeste revelam padrões
A pesquisa utilizou informações do Southern Photometric Local Universe Survey (S-Plus), um levantamento que abrange metade do céu do hemisfério Sul. Os dados foram coletados por meio de um pequeno telescópio robótico brasileiro instalado nos Andes chilenos. Montaguth e sua equipe analisaram 4.012 galáxias, observando como a localização e o ambiente circundante afetam sua estrutura.
Empregando o perfil de Sérsic — um modelo matemático que permite deduzir a forma galática pela distribuição do brilho superficial — os pesquisadores categorizaram os objetos estudados em quatro tipos. Galáxias tardias correspondem a 38% da amostra; iniciais, 36%; de transição, 12,5%; e as demais, com formatos variados, representam 13,5%.
As galáxias tardias assumem frequentemente configuração espiral, como a Via Láctea, ou irregular. Apresentam tonalidade azulada, indicador de que a geração de novas estrelas segue em ritmo acelerado. As iniciais englobam as galáxias elípticas, desprovidas de braços estelares e onde a produção de estrelas virtualmente cessou. Sua coloração avermelhada reflete uma estrutura envelhecida.
As de transição ocupam posição intermediária entre as espirais azuladas e as elípticas avermelhadas. As lenticulares — que possuem grandes discos alongados sem braços estelares — constituem a manifestação mais comum dessa categoria intermediária, onde a formação de novas estrelas praticamente estagnou. “As galáxias de transição estão passando da fase azul para a vermelha”, explica Montaguth.
Quanto ao contexto ambiental, quase 80% das galáxias analisadas ocupam posição dentro de agrupamentos — estruturas que variam em magnitude e podem conter entre meia dúzia e uma centena de objetos. Pouco mais de 20% constituem galáxias solitárias, localizadas em regiões praticamente desabitadas do Universo. Essa configuração permitiu aos pesquisadores investigar se o ambiente cósmico realmente exerce influência sobre a evolução estrutural das galáxias. A resposta se mostrou afirmativa.
O achado amplifica conclusões anteriores sobre o desenvolvimento de galáxias, sugerindo que galáxias em transição mostram uma sensibilidade ambiental consideravelmente maior do que outras categorias, como espirais e elípticas que se encontram em estágios distintos de evolução.
Com informações da Revista Pesquisa FAPESP. Veja a publicação original.
