Um salto na história dos dados nacionais

O censo realizado em 1920 marcou um divisor de águas para a produção de informações estatísticas no Brasil. Diferentemente de tentativas anteriores, frequentemente incompletas ou fracassadas, esse recenseamento alcançou sucesso inédito graças ao trabalho do médico e demógrafo José Luiz Sayão de Bulhões Carvalho (1866-1940), que então conduzia a Diretoria Geral de Estatística (DGE).

A conquista não foi simples. Bulhões Carvalho dedicou cinco anos de preparação intensiva para viabilizar o primeiro censo verdadeiramente bem-sucedido do país, conforme destaca Leandro Malavota, historiador do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), instituição que em 1938 herdaria o acervo do DGE e daria continuidade ao trabalho iniciado décadas antes.

Antes dessa experiência, o Brasil nunca havia investido em planejamento minucioso para conhecer sua população e sua economia em escala nacional. O historiador Nelson de Castro Senra, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence-IBGE) e especialista na trajetória da estatística brasileira, ressalta que não havia precedente de levantamento conduzido com tal amplitude territorial.

Métodos modernos para seu tempo

A abordagem adotada por Bulhões Carvalho incorporava visão avançada da atividade estatística para aquele contexto. Uma de suas iniciativas mais significativas consistiu em centralizar e padronizar o trabalho estatístico mediante coordenação única da coleta em estados e municípios. Segundo Senra, o demógrafo conquistou apoio de governadores, presidentes de província e responsáveis pelos órgãos estatísticos regionais—realização notável quando se considera que, até então, a produção de dados não seguia diretrizes comuns.

Bulhões Carvalho também compreendeu a importância da comunicação pública. Realizou palestras explicativas sobre os objetivos do recenseamento e mobilizou imprensa e instituições religiosas para ampliar a adesão popular ao levantamento. Na fase de processamento dos dados coletados, recorreu à tecnologia mais avançada disponível: as máquinas Hollerith, tabuladoras mecânicas criadas pelo norte-americano Herman Hollerith (1860-1929), que já operavam no Census Bureau dos Estados Unidos desde o final do século XIX. No Brasil, esses equipamentos revelaram-se essenciais para organizar o volume de informações respeitando os prazos estabelecidos.

Outra inovação significativa residiu na forma de apresentar os resultados. Bulhões Carvalho introduziu sistematicamente o uso de recursos visuais como gráficos, mapas, fotografias e material didático ilustrado para comunicar os achados do censo. Embora tais recursos já fossem conhecidos em outras nações, sua aplicação no Brasil partiu da iniciativa do demógrafo.

O próprio Bulhões Carvalho justificou essa escolha em sua obra Estatística: Método e aplicação, publicada em 1933: “Uma simples curva, um pontilhado, a combinação de linhas coloridas, ou de colunas de vários matizes, tornam visível a influência numérica de certos fatos sociais. Suprem, às vezes, por uma noção precisa, instantânea e quase intuitiva, o comentário dos algarismos, não raro longo e enfadonho.”

Os quadros gráficos produzidos para o recenseamento foram ampliados em grandes painéis e apresentados em exposições, facilitando o acesso público aos dados compilados. Essa preocupação com a disseminação e visualização das informações refletia compreensão sophisticada sobre a função social das estatísticas oficiais na sociedade.

A trajetória de Bulhões Carvalho evidencia como lideranças inovadoras podem transformar instituições e práticas administrativas. Seu trabalho lançou fundações sólidas para a produção de dados no Brasil, estabelecendo padrões metodológicos e comunicacionais que influenciariam a atuação do IBGE nos decênios subsequentes e consolidariam o país como referência em levantamentos censitários na região.

Com informações da Revista Pesquisa FAPESP. Veja a publicação original.