Infraestrutura própria como questão de poder

O Pix tornou-se foco da administração Donald Trump, entre outras razões, por representar um desafio ao domínio que Washington exerce sobre a arquitetura de transferências eletrônicas do Brasil. A conclusão vem de estudiosos de economia e assuntos geopolíticos ouvidos pela Agência Brasil.

Conforme esses especialistas, o interesse americano em taxar o sistema em 25% vai além da simples rivalidade com gigantes como Visa, MasterCard e Whatsapp Pay. O cálculo é fundamentalmente estratégico: impedir que países avancem em autonomia financeira e tecnológica, reduzindo assim a influência de Washington.

Para Maicon Cláudio da Silva, docente de economia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, o movimento aponta justamente para isso. “Esse tipo de medida deixa evidente que os EUA não querem perder esse poder que eles têm hoje sobre o sistema financeiro em boa parte do mundo. Não à toa, a China não usa Visa e Mastercard. Ela tem sistemas próprios, e isso tem a ver com uma maior soberania e autonomia desse país”, ressaltou.

Paradoxo das perdas econômicas americanas

Um dos aspectos mais intrigantes da situação diz respeito às próprias consequências financeiras para empresas dos EUA. O Pix, na verdade, ampliou o alcance de instituições americanas. Quando pessoas antes fora do sistema financeiro formal passaram a efetuar transações por transferência instantânea, muitas delas avançaram para serviços como cartão de crédito, canal onde os americanos ganham bastante.

Em 2025, o segmento de cartões movimentou R$ 4,5 trilhões, com crescimento de 10,1% segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços. Silva observa que a tarifa prejudicará desproporcionalmente as firmas americanas, já que elas detêm superávit comercial com o Brasil. “Do ponto de vista imediato, essas taxas acabam prejudicando mais os EUA. Por isso, essa é uma política econômica internacional focada em exercer poder por meio das sanções e tarifaços de maneira a pressionar os países a se submeterem aos EUA”, explicou.

Ronaldo Carmona, professor de geopolítica na Escola Superior de Guerra, reforça que o Pix converteu-se em instrumento de poder brasileiro, expandindo a autonomia econômica e financeira da nação. Ao elevar essa independência, o país consegue fazer negócios com outras nações em moedas locais, evitando as vantagens que os EUA extraem do dólar como moeda internacional.

Carmona também mencionou a rede de acordos que o Banco Central mantém com 47 países para replicar modelos similares. Essa difusão enfraqueceria ainda mais o monopólio de Washington sobre fluxos monetários internacionais.

Sanções e a armadura do sistema nacional

Outro fator relevante reside na capacidade que plataformas nacionais têm de blindar transações contra bloqueios econômicos americanos. Carmona lembrou que infraestruturas de pagamento com comando nos EUA invariavelmente obedecem às sanções da Casa Branca. Sistemas próprios como o Pix escapam dessa vulnerabilidade, limitando a efetividade de punições econômicas contra pessoas e entidades.

A tensão entre Washington e Brasília reflete um quadro mais amplo de disputa por hegemonia financeira global, onde a capacidade de um país desenhar sua própria rede de pagamentos passa a ser inseparável da sua soberania.

Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.