Mobilização cede após 50 dias de paralisações

A Bolívia registrou queda significativa nos bloqueios de rodovias que atravessavam o país há dois meses. Num intervalo de apenas algumas horas neste domingo, a quantidade de vias interditadas recuou de 31 para 12, conforme dados da Administradora de Estradas Bolivianas, que monitora a malha rodoviária em tempo real.

O arrefecimento das mobilizações ocorre após dois movimentos simultâneos do governo de Rodrigo Paz: um acordo negociado com a principal central sindical do país na sexta-feira anterior e a decretação de estado de exceção no sábado, posteriormente chancelado pelo Parlamento na madrugada desse domingo. A medida de emergência autoriza o executivo a impor toques de recolher em regiões específicas e mobilizar as Forças Armadas contra manifestantes.

Em seu auge, os protestos chegaram a interromper mais de 80 rodovias simultaneamente. O ciclo de reivindicações se intensificou desde janeiro, atingindo picos em maio e junho, principalmente após sanção de legislação sobre propriedade fundiária que desagradou setores agrícolas. Nesse período, movimentos começaram a exigir a saída do presidente, que governa há apenas sete meses após quase duas décadas de administrações de orientação esquerdista.

Fatores que contribuem para o recuo das mobilizações

Conforme análise de pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento que estuda a realidade boliviana, o desgaste acumulado durante a paralisação prolongada criou pressão para encerramento dos conflitos. Durante os 50 dias de bloqueios, populações enfrentaram carência de alimentos e medicamentos em várias cidades, além de outras consequências da paralisia econômica. A especialista observou que tais mobilizações ocasionaram perdas de vidas e paralisia urbana completa.

“As mobilizações custaram algumas vidas, inclusive, e paralisaram as cidades. Acho que a negociação com o governo aparece com uma saída que teria mais sentido, que beneficiaria os dois lados, ainda que não garanta a renúncia do Rodrigo Paz”, avaliou a pesquisadora em entrevista à Agência Brasil.

A estudiosa também contextualizou que a tática de interdição de estradas constitui prática histórica na Bolívia, originária de mobilizações contra o período colonial. Embora altamente eficaz em paralisar a vida urbana, demanda empenho contínuo e sacrifício dos participantes, fator que colabora para esgotamento das pessoas engajadas.

Detalhes da negociação com sindicatos

A Central Operária da Bolívia selou acordo com o Palácio Presidencial um dia antes do decreto emergencial. A organização sindical havia aderido aos protestos demandando correção de salários e denunciando inflação dos custos de existência. Mario Argollo, presidente da entidade, comunicou que o pacto estabelece período de 90 dias para verificação do cumprimento das promessas governamentais.

Argollo solicitou aos demais grupos manifestantes que encerrassem os bloqueios visando “pacificar o país” e ressaltou que o próximo movimento depende do desempenho estatal. “Isso tem passos definidos de 90 dias. Agora a bola está do lado do governo. Se ele conseguir trabalhar nos aspectos centrais nacionais e estruturais, seguramente o povo vai aplaudir. Se faltar a isso, o povo o buscará”, declarou às imprensas.

Os compromissos firmados incluem garantia contra criminalização de protestos; proteção de lideranças de movimentos sociais e sindicais contra perseguição; e constituição de comissão conjunta entre governo e COB para libertação de detidos durante os conflitos. Adicionalmente, o governo se comprometeu a preservar empresas públicas de importância estratégica de processos de privatização e a evitar concessão de recursos nacionais a interesses comerciais privados internos ou externos, conforme divulgação da mídia estatal boliviana. O presidente Paz celebrou o acordo em postagem em rede social.

Contexto: A escalada de conflitos na Bolívia reflete tensões mais amplas desde a mudança de orientação política do país. A aprovação simultânea de poderes emergenciais ao governo enquanto se negocia com sindicatos marca estratégia dual de contenção de mobilizações. Os próximos 90 dias serão decisivos para avaliar se as promessas governamentais conseguem desativar novas ondas de protesto.

Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.