Reversão é possível
A degradação ambiental que atinge o semiárido brasileiro não é um destino irreversível. Essa foi a mensagem central de especialistas que se reuniram na Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (17), durante seminário sobre o tema. O evento contou com organização do Centro de Estudos e Debates Estratégicos, em colaboração com a Secretaria de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social e a Frente Parlamentar Ambientalista.
José Etham Barbosa, que comanda o Instituto Nacional do Semiárido (Insa), trouxe dados alarmantes sobre a situação atual. A região de risco de desertificação expandiu entre 2000 e 2020, alcançando hoje mais de 170 mil quilômetros quadrados. Habita essa área contingente de aproximadamente 39 milhões de pessoas. Apesar da gravidade, Barbosa ressaltou que o problema não é insolúvel.
“A desertificação não é um fato em si, como os desertos naturais, por exemplo. Nós estamos em terras profundas que estão se degradando ao longo do tempo com características de desertificação. Falamos de um problema não só ambiental, mas que afeta a vida, a segurança alimentar e o futuro de milhões de pessoas”, afirmou.
Soluções em desenvolvimento
O Insa trabalha há mais de duas décadas com moradores da região por intermédio de soluções voltadas ao combate da desertificação. Uma das tecnologias mais consolidadas é o Sara, sistema de saneamento e reúso de água inaugurado em 2017. Conforme explicou Barbosa, a inovação transforma “um problema ambiental em ativo produtivo: enquanto trata o esgoto doméstico, reduz a contaminação ambiental, reaproveita água e nutrientes e fortalece a produção agrícola familiar”.
A instituição segue testando outras abordagens, como o sistema Siriema, igualmente dedicado ao saneamento e reúso hídrico. As iniciativas envolvem parcerias com a Embrapa e governos estaduais no enfrentamento do desafio.
Abdelfetah Siffedine, representante do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) no Brasil, destacou projetos em andamento no Nordeste. No Ceará, em conjunto com a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), trabalha-se em duas linhas: gestão de água e recuperação de terras já degradadas. Os resultados impressionam: modelos de recuperação observaram duplicação da biomassa, gerando efeitos econômicos diretos, como incremento na produção de mel.
Outro recurso em uso é a hidrologia espacial, metodologia que estuda o ciclo das águas e recursos hídricos por meio de satélites. Gustavo Kauark Chianca, representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, explicou que sensores monitoram níveis de rios e qualidade da água.
Práticas tradicionais também ganham destaque nas estratégias. O fundo de pasto, forma coletiva de uso da terra, e o manejo sustentável da Caatinga por criação animal solto e extrativismo garantem alimentação e renda com preservação do bioma. “Uma das tecnologias importantes é o fundo de pasto na região do semiárido brasileiro, feito por agricultores familiares. É um manejo hoje reconhecido e que garante a segurança alimentar, a sustentabilidade e ajuda a combater a desertificação”, salientou Chianca.
O seminário reflete crescente interesse de instituições públicas e agências internacionais em conter a degradação do semiárido. A agenda articula pesquisa científica, políticas públicas e práticas comunitárias numa tentativa de reverter tendências que comprometem a vida de dezenas de milhões de brasileiros.
Com informações da Agência Câmara. Veja a publicação original.




