Inteligência artificial corrói modelo de negócio do jornalismo digital

Os resumos fornecidos por inteligência artificial nos buscadores estão provocando queda significativa no número de visitantes que chegam aos portais de notícias brasileiros. A mudança, intensificada desde maio de 2024 com a chegada do Google AI Overviews, reduz a necessidade dos leitores clicarem nos links das reportagens originais, afetando diretamente a capacidade financeira das redações.

A Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que assessora 152 veículos on-line, revelou que uma em cada quatro operações digitais associadas registrou perda superior a 20% da audiência durante 2025. O problema não se restringe ao Brasil. Em maio do ano anterior, o Business Insider demitiu 21% de seus colaboradores em resposta à queda acentuada de usuários nos seus domínios, diretamente relacionada aos resumos automatizados dos buscadores.

Para executivos da indústria, o cenário representa uma ameaça existencial. Barbara Peng, da direção do Business Insider, apontou que “setenta por cento do nosso negócio apresenta algum grau de sensibilidade ao tráfego” e destacou a necessidade de reduzir estruturas corporativas diante de quedas “extremas” de acesso fora do controle das empresas.

Publicidade migra e modelo publicitário desaba

O impacto econômico se materializa principalmente na redução de receitas publicitárias. Carla Egydio, diretora de Relações Institucionais da Ajor, explicou que a queda de circulação nos domínios afeta diretamente a “atração de publicidade” e os cálculos de remuneração baseados em “métricas de audiência”. Segundo ela, o jornalismo já enfrentava crise financeira antes da chegada dos resumos de IA, com investidores direcionando recursos principalmente para plataformas digitais.

“O ecossistema jornalístico hoje vive um cenário de crise. Parte da publicidade já migrou, principalmente, para plataformas digitais. Os veículos que se financiavam, sobretudo por publicidade, têm uma dificuldade muito grande de manter seus negócios. Esse resumo da IA aprofunda um contexto de crise do jornalismo”, resumiu a representante da Ajor.

Riscos para a qualidade da informação

Além dos prejuízos econômicos, especialistas alertam para consequências na integridade das notícias. Os resumos automáticos nem sempre reproduzem o conteúdo completo das reportagens, provocando lacunas que prejudicam a compreensão contextualizada dos fatos. Egydio apontou ainda casos em que as máquinas copiam textualmente trechos de matérias sem atribuição apropriada, caracterizando plágio.

A preocupação com desinformação ganha relevância num ambiente onde as mesmas plataformas que oferecem resumos de IA também amplificam fake news. Para especialistas consultados, há potencial de agravamento da crise de confiança nas informações que circulam no país.

Legislação avança lentamente na Câmara

O Projeto de Lei 2338 de 2023, apelidado Marco Regulatório da IA, prevê que plataformas digitais compensem os direitos autorais de obras e reportagens utilizadas pela tecnologia. A medida tramita na Câmara desde março de 2025 e poderia reforçar o financiamento da imprensa profissional. Contudo, o avanço estagnou no último semestre, apesar de o presidente da Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), ter sinalizado prioridade ao tema.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) tem feito pressão pela aprovação da matéria, que quando chegou do Senado já incluía previsão de remuneração de empresas de IA pelo uso de conteúdos protegidos pela Lei de Direitos Autorais. Observadores apontam que a lentidão legislativa reflete pressão de grandes tecnológicas contra regulações que onerem seus modelos de negócio.

O contexto: A crise do financiamento jornalístico no Brasil combina múltiplas pressões — migração de publicidade para plataformas digitais, fragmentação de audiências e agora erosão de tráfego por IAs. A aprovação do Marco Regulatório permanece como aposta central do setor para criar receitas que compensem perdas de circulação.

Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.