Debate aponta caminhos para abandonar petróleo e carvão
Especialistas e autoridades federais defenderam nesta terça-feira (16) transformações estruturais para viabilizar o abandono gradual de fontes fósseis — petróleo, carvão e gás natural — em favor de alternativas que gerem menos aquecimento do planeta. O encontro ocorreu na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, durante análise de proposta legislativa sobre o chamado “mapa do caminho” para transição justa, economia com reduzidas emissões de carbono e eliminação do desmatamento.
O tema também integra iniciativas em andamento na Presidência e negociações internacionais vinculadas aos encontros da ONU sobre clima. Marina Silva, deputada pela Rede de São Paulo e ex-integrante da pasta ambiental, relatora do projeto, ressaltou que a mudança passa pela reorientação da Petrobras. Conforme sua avaliação, a estatal precisa evoluir de uma companhia voltada exclusivamente à extração de petróleo para uma diversificada produtora de energia — movimento que ampliaria o seu alcance estratégico.
Shigueo Watanabe, pesquisador do Instituto ClimaInfo, recorreu a metáfora para explicar o desafio. Segundo o físico, o petróleo funciona como elemento vital para o sistema econômico global, de modo que sua substituição equivaleria a “uma transfusão de sangue andando”. Para ele, o mapa representa não apenas uma mudança setorial, mas uma reconfiguração total da sociedade e da economia, situando-se no nível de uma decisão de Estado.
Combustíveis fósseis ainda dominam demanda global
Marlon Arraes Jardim, secretário nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia, contextualizou a persistência dos hidrocarbonetos. Cerca de 2 bilhões de motores de combustão interna estão em operação no mundo — sendo 1,5 bilhão em veículos leves e 500 milhões em veículos pesados, equipamentos e motores fixos — que consomem anualmente 36 bilhões de barris de petróleo. Perante esse cenário, o secretário reforçou a importância do Conselho Nacional de Política Energética na condução da transição e a necessidade de reduzir progressivamente a procura por combustíveis fósseis. “Diminuir a procura provoca diminuição da oferta como efeito consequente”, sintetizou.
Jardim exaltou os investimentos brasileiros em biocombustíveis, destacando o histórico do programa de etanol. Iniciado há mais de cinco décadas, a iniciativa economizou 3 bilhões de barris de petróleo, correspondendo a 225 bilhões de dólares em poupança para o tesouro e evitando a liberação de 1,4 bilhão de toneladas de CO2 na atmosfera.
Ambientalistas, contudo, manifestaram insatisfação quanto ao atraso na divulgação do documento nacional — originalmente previsto para fevereiro. O mapa de abrangência global foi apresentado neste mês pela presidência brasileira da COP30. Stela Herschmann, especialista do Observatório do Clima, avaliou o texto como contendo avanços substantivos a serem aprofundados até a COP31, agendada para novembro na Turquia. O instrumento, segundo ela, busca avaliar o nível de dependência das nações em relação aos fósseis e sua capacidade para transicionar, considerando métricas energéticas, financeiras, institucionais e populacionais.
No eixo comportamental, a organização Clima de Política apresentou a campanha internacional “Fora publicidade fóssil”, lançada em abril durante a primeira Conferência da ONU sobre Transição Justa, na Colômbia. Guilherme Tampieri, coordenador da iniciativa, comparou a situação com restrições históricas: assim como a publicidade de cigarros — substância que mata 8 milhões de pessoas anualmente — é vedada no Brasil, questiona por que propagandas de setores que causam quase 7 milhões de mortes globais por ano não enfrentam semelhante proibição. A campanha busca alterar percepções sociais sobre negócios dependentes de combustíveis fósseis.
O debate reflete o estágio atual das discussões sobre transição energética no Brasil, onde coexistem movimentos legislativos, compromissos internacionais e propostas de mudança cultural. Os próximos passos incluem a divulgação do mapa nacional e a consolidação de diretrizes a serem levadas às próximas conferências climáticas globais.
Com informações da Agência Câmara. Veja a publicação original.




