Cenário crítico para ecossistemas únicos do Atlântico Sul

Os recifes de coral que marcam a costa brasileira vivem um período de transformação acelerada. Submetidos simultaneamente ao aquecimento oceânico, degradação ambiental e episódios repetidos de branqueamento, essas formações geológicas que se estendem por aproximadamente 3 mil quilômetros enfrentam pressões cada vez maiores. A particularidade que agrava o quadro: o país abriga os únicos sistemas recifais do Atlântico Sul, com destaque para uma diversidade singular de corais-de-fogo do gênero Millepora — quatro espécies vivem em águas brasileiras, sendo três exclusivas do território nacional.

A gravidade da situação ganhou reconhecimento institucional em abril deste ano. O Ministério do Meio Ambiente e o ICMBio atualizaram a Lista Nacional de Espécies Aquáticas Ameaçadas de Extinção, reclassificando todas as variedades de coral-de-fogo encontradas no Brasil para categorias de maior vulnerabilidade. Duas espécies — Millepora braziliensis e Millepora laboreli — ingressaram na categoria “criticamente em perigo”, estágio que antecede apenas a extinção completa na natureza. A Millepora alcicornis, também presente no Caribe, desceu para “em perigo” após sofrer mortalidade superior a 90% nos últimos eventos de branqueamento. Já a Millepora nitida recebeu classificação de “quase ameaçada”.

Uma questão de distribuição geográfica e velocidade das mudanças

O pesquisador Miguel Mies, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, coordenador do Projeto Coral Vivo e bolsista Jovem Pesquisador da FAPESP, destaca a vulnerabilidade particular de uma das espécies. “Millepora braziliensis é um animal com distribuição extremamente restrita, o que aumenta muito o risco. Um único evento de branqueamento em massa pode ser suficiente para extinguir a espécie”, alertou.

Diante dessa aceleração, a comunidade científica começou a explorar alternativas que pareciam remotas poucos anos atrás. Conservacionistas agora discutem a possibilidade de manter populações ameaçadas em ambientes controlados, fora dos ecossistemas naturais. “Já estamos debatendo como manter essas espécies vivas em sistemas artificiais, porque a natureza atual, modificada pelo ser humano, pode se tornar incompatível com a existência delas”, explica Mies, que também coordena o monitoramento nacional de recifes coralíneos com apoio do Coral Vivo e da Petrobras.

Uma pesquisa publicada em 2025 na revista Coral Reefs reforça essas preocupações. O estudo, coordenado por Mies e baseado no maior esforço já empreendido para acompanhar o branqueamento no Atlântico Sul, documenta as perdas severas causadas pelo evento global de branqueamento ocorrido entre 2023 e 2024, particularmente na região Nordeste. Os dados indicam também que a repetição desses episódios vem reduzindo a capacidade dos ecossistemas de se recuperarem de forma natural.

O mecanismo por trás do colapso dos recifes

O fenômeno do branqueamento de corais começa com o aumento anômalo da temperatura oceânica, provocado pelo aquecimento global e pela maior frequência de ondas de calor marinhas. Quando submetidos a essas condições extremas, os organismos expulsam as zooxantelas — microalgas que vivem dentro de seus tecidos e fornecem grande parte dos nutrientes necessários para sua sobrevivência. Privados dessas algas, os corais perdem sua coloração típica e enfrentam estresse fisiológico severo. Embora seja possível reverter o branqueamento em certos casos, episódios intensos ou prolongados costumam resultar na morte das colônias.

Pesquisadores apontam 2016 como um ponto crítico nos recifes brasileiros. Naquele ano, uma forte anomalia térmica atingiu diferentes trechos da costa do país, seguindo um padrão que já se observava em outras regiões do globo. À época, científicos debateram se o aumento na frequência registrada refletia apenas melhorias nos sistemas de monitoramento ou se os eventos estavam, genuinamente, tornando-se mais comuns. A resposta veio em 2019, quando uma nova onda de calor impactou os recifes com intensidade ainda maior, desta vez registrada por um número significativamente maior de grupos de pesquisa atuando simultaneamente em diferentes pontos da costa.

O cenário dos recifes brasileiros ilustra um dilema maior enfrentado por ecossistemas marinhos globais: a velocidade das transformações climáticas supera a capacidade adaptativa de espécies que levaram milhares de anos para evoluir. Com atualizações nas listas de espécies ameaçadas refletindo avaliações cada vez mais pessimistas, a discussão sobre conservação ex-situ — em ambiente artificial — deixa de ser hipotética e se torna estratégia de sobrevivência.

Com informações da Revista Pesquisa FAPESP. Veja a publicação original.