Neuroprotetor em desenvolvimento oferece novo caminho
Um neuroprotetor feito a partir de gergelim está sendo desenvolvido para atenuar os efeitos de doenças cerebrais graves como acidente vascular cerebral (AVC) e Alzheimer. O projeto, que recebe apoio da Embrapii, já superou a fase de testes em animais, mostrando resultados positivos em lesões cerebrais agudas em roedores.
Os números que motivaram a pesquisa são preocupantes. Em 2024, o Brasil contabilizou 84.878 mortes por AVC, com uma morte registrada a cada sete minutos até abril deste ano (totalizando 18.724 óbitos). A projeção indica 10 milhões de mortes pela doença no país até 2050. Globalmente, o Alzheimer afeta 70 milhões de pessoas, sem contar outras condições neurodegenerativas como Parkinson, Huntington e Esclerose Lateral Amiotrófica.
Como o medicamento funciona
O diferencial do composto em desenvolvimento está em seu mecanismo de ação. Quando uma pessoa sofre AVC, o dano cerebral inicial tende a expandir com o passar do tempo, chegando a aumentar entre 60% e 70% do tamanho original. Esse processo, chamado degeneração secundária, ocorre principalmente pela inflamação excessiva no cérebro e pela geração de radicais livres (estresse oxidativo).
O fitoterápico foi concebido para bloquear essa expansão secundária, reduzindo assim as sequelas dos pacientes. A inovação central está em sua natureza: trata-se de um composto de origem vegetal sem os efeitos colaterais tóxicos observados em medicamentos alopáticos já testados, que podem provocar psicose e alucinações. Outra vantagem relevante é a possibilidade de administração dias após o AVC, ao contrário dos tratamentos disponíveis no mercado, que atuam apenas nas primeiras horas para dissolver o coágulo em casos de AVC isquêmico.
A pesquisa envolveu parcerias entre a Embrapii e o Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (Cienp), sediado em Florianópolis. O projeto está sob coordenação do pesquisador João Batista Calixto. A startup responsável, Neuroprotect, foi fundada pelo biomédico e neurocientista Walace Gomes Leal, que também é professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e autor principal da pesquisa. A equipe reúne 12 pesquisadores com doutorado ou pós-doutorado e cinco técnicos de nível superior.
Segundo Calixto, “uma nova alternativa terapêutica poderá disponibilizar o tratamento de milhares de pacientes e reduzir drasticamente os índices de invalidez decorrentes do AVC, que hoje figura entre as principais causas de morte e incapacidade no Brasil e no mundo”. Para o Sistema Único de Saúde (SUS), uma terapêutica mais eficaz poderá diminuir os custos com internações prolongadas, reabilitação de longo prazo e aposentadorias precoces por invalidez.
Trajetória da pesquisa
O trabalho de Walace Gomes Leal com lesões cerebrais e da medula espinhal começou há mais de 15 anos, utilizando modelos experimentais no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará. Em 2012, seu grupo publicou o primeiro estudo internacional demonstrando propriedades neuroprotetoras do óleo de copaíba em ratos com lesão cerebral aguda.
A partir daí, a equipe investigou aproximadamente seis plantas amazônicas para tratamento de AVC, orientando-se por conhecimentos da medicina popular. Uma delas, designada ST-165, apresentou significativo efeito anti-inflamatório e neuroprotetor em medula espinhal de ratos paraplégicos, conforme mostram duas teses de doutorado sob orientação de Leal. Em 2022, iniciou-se a transformação do composto ST-165 em um neuroprotetor para AVC em humanos, com testes pré-clínicos em animais seguindo todas as normas de resoluções da Anvisa, FDA e EMA, as agências regulatórias brasileira, americana e europeia.
A iniciativa insere-se em um contexto de crescente demanda por alternativas terapêuticas inovadoras contra doenças neurodegenerativas, especialmente ante o aumento projetado de casos de AVC e Alzheimer nos próximos anos. Os próximos passos da pesquisa incluem a consolidação dos resultados pré-clínicos e a preparação para possíveis testes clínicos em humanos.
Com informações da Embrapii. Veja a publicação original.
