Recorde de endividamento, queda na inadimplência
O Brasil acompanha um movimento contraditório nas finanças domésticas. Enquanto cresce o número de famílias com algum tipo de dívida, diminui a proporção daquelas que não conseguem honrar suas obrigações no prazo estabelecido.
Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgado nesta quinta-feira, o patamar de lares endividados atingiu 82% no mês de julho — o sexto mês consecutivo nesse mesmo nível recorde. A comparação com períodos anteriores mostra intensidade do fenômeno: em junho ficou em 81,6%, enquanto há um ano era 78,5%.
Por outro lado, a inadimplência retrocedeu. O percentual de famílias com contas em atraso caiu para 29,8% em julho, ante 29,9% em junho e 30% no mesmo mês do ano anterior. O tempo médio de atraso apresenta tendência de redução desde abril, quando marcava 65,1 dias, chegando agora a 64,6 dias.
Orçamento comprometido e composição das dívidas
Os dados revelam pressão no bolso dos brasileiros. Em média, as famílias têm quase 30% da renda comprometida com obrigações financeiras — especificamente 29,5%. O período médio de comprometimento permanece próximo de sete meses (7,2 meses atualmente, contra 7,1 meses um ano atrás).
A pesquisa, que entrevistou 18 mil famílias de todo o país, considerou diferentes tipos de dívida: cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de imóvel e veículo.
Um instrumento de crédito predomina amplamente nas dívidas contraídas: o cartão de crédito aparece em 85,3% dos casos de famílias endividadas. Na sequência figuram carnês (16,1%), crédito pessoal (13%), financiamento imobiliário (9,6%), financiamento veicular (9%), crédito consignado (7,1%), cheque especial (3,4%), outras modalidades (2,5%) e cheque pré-datado (0,2%).
Disparidade por faixa de renda
O endividamento não se distribui uniformemente na população. Entre as famílias com orçamento até três salários mínimos, 84,9% possuem dívidas ativas. Nas de renda acima de dez mínimos, essa proporção cai para 72%.
A inadimplência acentua ainda mais essa desigualdade. Nas famílias de menor poder aquisitivo, 38,5% enfrentam contas em atraso. Entre as de maior renda, apenas 15,1% encontram-se nessa situação.
Queda de juros e perspectivas
A divulgação dos dados coincidia com decisão do Banco Central. No dia anterior, o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou redução da taxa Selic, de 14,25% para 14% ao ano — movimento interpretado como sinal de flexibilização nas condições de crédito.
Para Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, a queda nos juros básicos representa caminho importante, mas com efeitos que não são imediatos. Segundo ele, a medida tende a resultar em redução do custo de novas operações e em renegociações de dívidas em termos mais vantajosos para os tomadores.
Bentes ressalva, porém, que o grau elevado de comprometimento da renda familiar indica que a recuperação da capacidade de consumo ocorrerá gradualmente. Ele projeta que a continuação do processo de queda de juros, caso acompanhe a trajetória da inflação, pode aliviar o orçamento doméstico — especialmente para estratos de menor renda.
A CNC estima que o endividamento avance nos próximos trimestres, alcançando 82,6% em setembro. Para a inadimplência, a projeção indica também crescimento, chegando a 30,3% no mesmo mês.
Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.





