Diante de tarifas ameaçadoras, governo aponta para diversificação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comunicou, em reunião ministerial no Palácio do Planalto na quarta-feira, que o Brasil dará prosseguimento à busca por mercados alternativos visando reduzir impactos da política comercial adotada pelos Estados Unidos.
A declaração ocorreu em contexto de elevada tensão bilateral, após o Escritório do Representante Comercial dos EUA sugerir, na segunda-feira anterior, a aplicação de tarifas de 25% sobre parcela das importações brasileiras. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, essas medidas atingem diretamente 21% do total das vendas brasileiras ao mercado norte-americano.
“Se ele não quer comprar, a gente vai vender para quem quiser comprar. Não vamos ficar reclamando”, afirmou o presidente aos integrantes de seu ministério. Lula reforçou a postura de que o Brasil não está disposto a aceitar supostas pressões desproporcionais, complementando que buscaria novos investidores caso houvesse recusa. “O Brasil é dono do seu nariz. Isso aqui é um país democrático e soberano”, completou.
Investigação americana e escalada comercial
A ação tarifária dos EUA fundamenta-se em investigação iniciada há um ano, ainda no governo de Donald Trump, que aponta supostas “práticas desleais” do Brasil no comércio bilateral. Entre as acusações, a instituição americana cita o sistema de pagamentos instantâneos Pix, alegando prejudicar empresas norte-americanas de serviços de pagamento eletrônico, como operadoras de cartões como MasterCard e Visa, além do WhatsApp Pay.
O governo brasileiro e empresas afetadas terão até 15 de julho para apresentar manifestações sobre o relatório final da representação comercial americana. Após essa data, os EUA poderão implementar “medidas corretivas” contra o Brasil.
Para o presidente, a atitude norteamericana surpreende pelo fato de haver negociação em andamento. Lula recordou encontro com Donald Trump em maio na Casa Branca, ocasião em que estabeleceram prazo de 30 dias para alcançar acordo sobre questões comerciais. Na oportunidade, o mandatário brasileiro apresentou documentação comprovando a relação comercial favorável ao lado americano, indicando superávit comercial dos EUA de US$ 415 bilhões nos últimos 15 anos. “Eu saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento democrático e civilizado entre Brasil e Estados Unidos. E confesso a vocês que fui pego de surpresa ontem com a decisão deles”, declarou.
Postura de independência e compromissos multilaterais
Reforçando tom de independência nas relações exteriores, Lula afirmou que o Brasil abandonou abordagens que chamou de submissas perante grandes potências. “Nós resolvemos não adotar mais a política do vira-lata diante das grandes potências. Nós não somos melhores do que ninguém, mas não somos piores. Vamos respeitar todo mundo, mas queremos respeito”, disse aos ministros.
Em movimento adicional de engajamento internacional, o presidente anunciou sua participação na reunião do G7 prevista para junho na França. A decisão marca mudança nos planos originais, quando Lula não participaria do encontro. O Brasil comparecerá como convidado do presidente francês, Emmanuel Macron. Lula aproveitou para reiterar defesa do fortalecimento das Nações Unidas e da reforma do Conselho de Segurança, propondo que a reconstrução institucional seja resposta mais apropriada que desmonte do sistema multilateral, caso contrário ampliaria os problemas globais.
As disputas comerciais evidenciam tensionamento das relações Brasil-EUA em um contexto mais amplo de questionamentos ao multilateralismo. O desfecho das negociações até meados de julho poderá sinalizar caminhos da retomada ou aprofundamento das divergências bilaterais.
Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.
