Instituição defende integridade do processo de correção

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) descartou modificações nos procedimentos que orientam a avaliação de redações no Enem e anunciou estar em fase de análise para incorporar inteligência artificial no processo de liberação dos resultados das avaliações pedagógicas. A posição foi manifestada durante sessão pública da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados realizada na quarta-feira, 10 de junho.

O encontro respondeu a preocupações levantadas por participantes do exame quanto a possíveis falhas e falta de clareza nas pontuações do ano anterior. A convocação partiu do deputado Túlio Gadelha (PSD-PE), que acolheu relatos de candidatos sobre discrepâncias nos documentos de resultado e prováveis mudanças em diretrizes internas da avaliação.

Rigor aplicado a redações com padrões repetitivos

Eduardo Carvalho Sousa, responsável pela Avaliação da Educação Básica no Inep, esclareceu que os critérios utilizados para a avaliação das redações permanecem os mesmos desde 2009. Conforme sua explanação, o que se alterou foi apenas uma maior intensidade na fiscalização de textos elaborados a partir de estruturas pré-estabelecidas.

“Estamos com uma indústria de redações pré-fabricadas, no qual a pessoa só muda algumas frases. O que aconteceu foi um rigor um pouco maior com essas redações pré-prontas”, explicou o diretor.

Sousa detalhou o mecanismo de validação: profissionais responsáveis pela correção participam de capacitação contínua, e cada texto é submetido à avaliação de dois especialistas que atuam de forma independente, sem acesso à pontuação previamente concedida. Quando as notas divergem em mais de 80 pontos em alguma das competências avaliadas, o sistema redireciona o trabalho para análise complementar.

Quanto à incorporação de tecnologia, o Inep sinalizou estar em estágio inicial de experimentação com fornecedores do setor para verificar a viabilidade da IA na correção automática. O objetivo central é comprimir o intervalo entre a divulgação das notas oficiais e a disponibilização da folha espelho — documento que detalha como o avaliador chegou àquele resultado — e das avaliações pedagógicas, atualmente liberadas cerca de 60 dias após o anúncio dos escores.

Estudantes reivindicam maior transparência e canais acessíveis

Participantes estudantis utilizaram o espaço para argumentar em favor de orientações mais inteligíveis quanto aos parâmetros utilizados na avaliação. Letícia Holanda, diretora de Relações Institucionais da União Nacional dos Estudantes (UNE), ressaltou que muitos jovens de regiões menos favorecidas encontram dificuldades para interpretar normativos e materiais divulgados pelo Enem.

Na avaliação de Holanda, uma compreensão mais ampla desses critérios permitiria aos candidatos estruturar melhor sua formação e fortalecer a confiança no instrumento avaliativo. Ela também alertou para riscos envolvidos na adoção de novas tecnologias sem supervisão adequada: “O uso da tecnologia precisa ser feito com controle público e social para termos fortalecimento da transparência. Sem isso, a IA pode ser prejudicial e reforçar vícios e padrões nas redações”.

Paulo Henrique Viana, presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), propôs mecanismos mais acessíveis para que candidatos questionem suas pontuações. Para ele, a folha espelho deveria funcionar como ferramenta que permite ao estudante identificar equívocos ou incongruências e formular uma reclamação estruturada junto à instituição. Sousa informou que o meio oficial para essas solicitações é a plataforma Fala BR.

Potencial de integração com outras avaliações

Lorena Pantaleão da Silva, coordenadora de educação digital do Paraná e representante do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), enfatizou a importância das redações para o desenvolvimento integral dos candidatos. Segundo ela, o exame promove engajamento com questões cívicas, desenvolvimento do raciocínio analítico e habilidades argumentativas.

Silva também destacou uma possibilidade de sinergia: a articulação entre o Enem e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) poderia fornecer às administrações educacionais estaduais recursos mais robustos para monitorar o desempenho do ensino médio e acompanhar a efetividade da aprendizagem.

A discussão ocorre em contexto de crescente demanda por clareza nos processos de avaliação de larga escala no país. As deliberações desta quarta refletem tensões entre a necessidade de otimização operacional — motivada pela incorporação de tecnologia — e a exigência de maior transparência e participação social na definição desses processos.

Com informações da Agência Câmara. Veja a publicação original.