Crença religiosa e voto: o que revelam os números

Oito a cada dez cidadãos e cidadãs no Brasil entendem como imprescindível que quem dispute eleições tenha convicção em uma divindade. A proporção salta significativamente quando se observa a estratificação por renda: entre os que recebem até um salário mínimo, esse percentual chega a 89%, enquanto cai para 57% naqueles que ganham entre dez e vinte salários mensais.

O levantamento foi conduzido pelo Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião (LePar), vinculado à Universidade Federal Fluminense. Os dados foram divulgados em quarta-feira durante abertura do 1º Congresso Internacional e Multidisciplinar sobre Sociedade: religião, política e valores, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Deus cristão e educação: o que pensam os brasileiros

A investigação evidencia centralidade da figura do Deus cristão, especialmente entre grupos de menor poder aquisitivo. Três quartos dos entrevistados (74%) concordam que a divindade torna as pessoas melhores — proporção que atinge 86% entre quem percebe até um salário mínimo. Além disso, oito em cada dez defendem que instituições de ensino devam transmitir às crianças e adolescentes a crença em Deus.

Contudo, essa reverência à religiosidade não se converte automaticamente em confiança depositada em organizações religiosas. A socióloga Christina Vital, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense, observou: “Mas, curiosamente, essa valorização significativa de Deus não se traduz em mais confiança nas instituições religiosas, sobretudo igrejas, que costuram o cotidiano religioso”.

Na pesquisa, apenas 56% manifestaram confiança na Igreja Católica — instituição com maior credibilidade conforme o estudo. As igrejas protestantes ficaram com 51%, enquanto centros kardecistas obtiveram apenas 19%. Essa disparidade evidencia distância entre fé individual e pertencimento institucional.

Laicidade do Estado: entre entendimentos conflitantes

Os achados rebatem também sobre concepções de Estado. Metade dos participantes da pesquisa (54%) defende que a máquina pública não deva ser laica. Vital ressaltou haver confusão generalizada sobre o conceito: “Existe confusão sobre o que é laicidade. Quando perguntadas sobre isso, ouvimos muitas coisas diferentes e que não se relacionam com a separação entre religião e Estado”.

Michel Gherman, que coordena o Observatório das Crises das Democracias das Américas vinculado à UFRJ, interpreta esses números como indicador de como extremas direitas se apropriaram de valores religiosos. Na análise dele, não foi o crescimento do protestantismo que consolidou a extrema direita no país, mas inversamente: “Isso significa dizer que não foi a ascensão desse cristianismo protestante no Brasil que fortaleceu a extrema direita, mas, antes, foi ela quem conseguiu instrumentalizar alguns valores dessa percepção religiosa do mundo para o seu ‘projeto de passado'”.

Como exemplo, Gherman apontou que sete entre dez candidatos a postos políticos no Rio de Janeiro afirmam acreditar em uma suposta conspiração progressista voltada à degeneração moral através da educação escolar. O cientista conecta práticas religiosas com apetência por ordem: “Como essas práticas religiosas têm certo desejo de ordem, elas produzem essas teorias de que ‘existe algo que não vemos’, mas que governa as coisas. E, daí, as extremas direitas se valem disso para se fortalecer”.

Christina Vital identificou retórica comum atravessando grupos distintos — independente de raça, classe ou gênero — sobre perda de algo que existia anteriormente: “E ela atravessa a cor da pele, as classes sociais, o gênero, etc.”. Esse sentimento não assume conformação política uniforme, mas manifesta matizes mais esquerdistas e outros mais direitistas. No debate sobre gênero, por exemplo, emerge percepção de que mulheres conquistaram espaços sociais indevidos.

Lucio Rennó, cientista político da Universidade de Brasília, ressalva: “Mas é um fato que existe regularidade estatística entre ser evangélico e votar na extrema direita. Isso significa uma relação de identidade: os brasileiros votam em quem julgam que se parecem com eles”.

A pesquisa integra discussões ampliadas sobre como valores religiosos impactam comportamento eleitoral e imaginários políticos em democracias contemporâneas. Com o calendário de eleições em movimento, compreender essas correlações torna-se relevante para análise de tendências de voto e formação de coligações.

Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.