Maioria dos documentos fiscais tem problemas antes da reforma
A transição para o novo regime tributário, que começa a funcionar efetivamente em 2027 após testes neste ano, enfrenta um obstáculo significativo: grande parte das notas fiscais eletrônicas circulando no mercado está com informações incompletas ou incorretas. Isso coloca em risco o aproveitamento de créditos fiscais pelas empresas compradoras.
A V360, plataforma que automatiza processos fiscais e relacionamento com fornecedores, realizou diagnóstico analisando mais de 6,4 milhões de documentos. O resultado do chamado Termômetro do Crédito IBS/CBS indica que aproximadamente dois terços apresentam deficiências capazes de impedir o desconto integral dos tributos pagos sobre insumos. Entre esses casos, 64,4% dos registros chegam com os campos específicos para o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) em branco. Outros 1,8% contêm inconsistências entre o calculado pelos fornecedores e os valores de referência para validação.
O mecanismo de crédito tributário funciona como um anteparo contra a chamada tributação em cascata, na qual um mesmo produto é taxado repetidas vezes ao longo da cadeia. O IBS e a CBS amplificam esse regime ao eliminar tratamentos especiais e modelos acumulativos anteriores. A reforma generaliza a lógica de desconto, permitindo que as empresas abatam dos impostos a recolher os tributos que já pagaram na aquisição de bens e prestações.
Validação torna-se responsabilidade compartilhada
O novo arranjo, porém, complexifica o fluxo operacional. Não basta que o fornecedor emita o documento de forma correta. O comprador passa a ter papel ativo na conferência, precisando validar as informações antes de registrá-las contabilmente. Além disso, ganham importância os chamados eventos fiscais—confirmações de operação, recusas, manifestações diversas—que precisam estar documentados no arquivo eletrônico para comprovar o direito do crédito junto ao Fisco.
Izaias Miguel, co-CEO da V360, aponta que o verdadeiro desafio não residirá na emissão propriamente dita. “O mercado fala muito sobre como emitir a nota no novo modelo, mas o ponto crítico para quem opera em grande escala será receber, validar e garantir o crédito. Se a empresa não conseguir organizar o ingresso fiscal, ela pode ter nota emitida corretamente pelo fornecedor, mas ainda assim enfrentar divergências, atrasos e risco de perda de crédito.”
A pesquisa revela ainda que apenas 35,8% dos 139 mil fornecedores examinados preencheram adequadamente os novos campos de IBS e CBS. Os restantes 64,2% permanecem desajustados às exigências. Esse cenário transforma a gestão da base de fornecedores em fator crítico: a qualidade dos dados que cada elo da cadeia de suprimentos disponibiliza determina se o comprador conseguirá aproveitar os créditos integralmente ou enfrentará perdas financeiras.
Um indicativo adicional do estágio embrionário da implementação é que, entre mais de 10,8 milhões de eventos registrados nas Secretarias Estaduais da Fazenda (Sefaz), apenas 0,04% utilizavam as novas funcionalidades previstas na reforma. A conclusão é que tanto empresas quanto órgãos de controle ainda estão nos primeiros passos da adaptação.
Para Miguel, o modelo reformulado demandará integração maior entre departamentos tradicionalmente isolados—fiscal, financeira, compras, tecnologia e jurídica. A automação em larga escala torna-se essencial. “A reforma tributária aumenta o custo do erro operacional. Uma divergência que antes gerava retrabalho interno pode passar a afetar crédito, caixa e conformidade fiscal. O destinatário passa a ter uma função muito mais ativa na cadeia tributária,” ressalta.
O que vem por aí
Os dados sinalizam que a transição para 2027 seguirá turbulenta sem ajustes rápidos. Empresas precisarão investir em ferramentas de validação automática de documentos, treinar equipes e reorganizar fluxos internos. O risco de perda de créditos tributários—equivalente a descontos sobre impostos devidos—representa volume financeiro considerável, especialmente para operações de grande volume. A próxima fase de testes definirá se o mercado consegue acelerar o alinhamento ou se os problemas identificados persistirão quando o regime entrar em funcionamento pleno.
Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.
