A inovação financeira que vai além da moeda
O Banco Central do Brasil colocará em operação ainda em 2026 uma versão-piloto do Drex, inovação que promete reformular a forma como os brasileiros realizam operações financeiras. Diferentemente das moedas digitais de banco central (CBDC) já em uso por China, Bahamas, Nigéria e Jamaica, o projeto brasileiro vai mais longe: trata-se de uma plataforma integrada de transações seguras, não apenas um ativo digital.
A concepção do Drex se afasta da abordagem tradicional de moedas criptografadas. Segundo Fabio Araujo, economista e engenheiro eletricista que coordena o projeto no Banco Central, o diferencial está na inspiração buscada no ambiente de finanças descentralizadas (DeFi). “O Drex é inovador. A principal inspiração é o ambiente de finanças descentralizadas [DeFi, de decentralized finance]”, afirma.
Tecnologia blockchain e regulação integradas
O modelo DeFi funciona como um espaço independente onde usuários realizam trocas entre si, dispensando intermediários como governos, instituições bancárias ou operadoras. A tecnologia blockchain sustenta esse funcionamento, fornecendo um registro digital criptografado que pode ser distribuído de maneira descentralizada. O Banco Central, porém, busca trazer esses avanços para o ambiente regulado. “Queremos trazer para o ambiente regulado os desenvolvimentos que estão acontecendo em DeFi, que se encontram majoritariamente ao largo da regulação”, explica Araujo.
Entre os mecanismos que serão incorporados ao Drex estão os contratos inteligentes, sistema capaz de executar operações de forma automática quando determinadas condições são acionadas. Um cenário prático seria a transferência de propriedade de um imóvel ou automóvel sincronizada simultaneamente com o pagamento. Outra funcionalidade prevista é a tokenização de ativos: transformação de bens físicos como títulos do governo, propriedades imobiliárias e outros valores materiais em representações digitais (tokens) que funcionam como garantias rastreáveis em operações de crédito.
Araujo reconhece que o projeto ainda enfrenta obstáculos significativos antes de sua implementação plena. Questões de segurança dos sistemas e capacidade de processamento em larga escala demandam aprimoramento contínuo. Além disso, harmonizar serviços financeiros distintos para funcionarem de forma conjunta e integrada, apesar de possuírem arquiteturas tecnológicas diferentes, representa desafio adicional.
A estrutura de desenvolvimento do Drex seguiu modelo colaborativo, contando com participação de instituições financeiras privadas, órgãos públicos como a Comissão de Valores Mobiliários, e centros acadêmicos incluindo o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Fundação Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações e Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.
Histórico de sucesso anterior
O Drex integra uma série de iniciativas tecnológicas implementadas pelo Banco Central que transformaram o setor financeiro. O Pix, sistema de pagamento instantâneo disponível continuamente (24 horas, sete dias da semana) desde 2020, exemplifica bem esse impacto. Mais de 170 milhões de usuários pessoas físicas se registraram na plataforma — aproximadamente 80% da população brasileira. Em janeiro, foram registradas acima de 7 bilhões de operações por meio do Pix, com movimentação financeira de R$ 3,16 bilhões.
A velocidade de adesão do Pix surpreendeu mesmo no contexto internacional. “Por volta de 60 países têm sistemas de pagamentos instantâneos em operação, sendo que alguns deles, como o da Coreia do Sul e o de Hong Kong, já estão em operação há mais de duas décadas. Nenhum teve uma adoção tão rápida e abrangente quanto o Pix”, observa Araujo. Dois componentes foram fundamentais para esse sucesso: as operações serem completamente gratuitas para pessoas físicas e a simplicidade de utilização.
O lançamento do Drex em versão-piloto marca a continuidade de uma estratégia que reposiciona o Brasil como laboratório de inovação financeira. O sucesso do Pix demonstra que a população está preparada para adotar novas ferramentas quando estas agregam facilidade operacional e acesso democrático. Os próximos anos indicarão se a plataforma de transações do Drex, com suas funcionalidades avançadas, conseguirá replicar a penetração alcançada pela modalidade de pagamento instantâneo.
Com informações da Revista Pesquisa FAPESP. Veja a publicação original.
