Debate sobre nomenclatura política divide pensadores
A recusa de estudiosos em reconhecer manifestações autoritárias da extrema direita sob a nomenclatura de fascismo representa um obstáculo ao entendimento dos fenômenos políticos contemporâneos, segundo o filósofo Vladimir Safatel. O professor da Universidade de São Paulo participou de entrevista exclusiva em que questionou essa postura intelectual.
Para Safatle, essa cautela conceitual acaba por conivência com processos políticos que precisam ser nomeados com precisão. Docente do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ele será debatedor no encontro sobre Novos Fascismos Globais agendado para o próximo sábado (6), a partir das 11h40, como parte da programação da Feira do Livro em São Paulo.
Reframing histórico do conceito
A definição convencional de fascismo, restrita ao período da década de 1930 na Itália, representa uma escolha política consciente de limitar a percepção sobre como as estruturas democráticas liberais incorporaram sistematicamente formas de coerção tipicamente fascistas contra segmentos específicos da população. Essa interpretação tradicional, na visão do pensador, mascara processos históricos mais profundos.
Segundo Safatle, seria mais apropriado compreender as democracias ocidentais como portadoras de fascismos restritos—isto é, metodologias repressivas empregadas seletivamente em contextos territoriais determinados, contra grupos sociais particulares. Em momentos de crise institucional, essas práticas se generalizam e ganham visibilidade, como observado atualmente.
As estruturas de coerção utilizadas pelo fascismo histórico não surgiram de forma espontânea, mas derivam de tecnologias de violência aperfeiçoadas durante períodos coloniais. Discriminação racial, desaparecimentos forçados, massacres administrativos e indiferença institucional frente a genocídios funcionavam como normalidades em sistemas coloniais, antes de serem incorporados aos regimes fascistas europeus.
Nações que mantêm matriz colonialista robusta—como o Brasil—perpetuam essas modalidades de violência conforme suas especificidades históricas, ainda que frequentemente escamoteadas sob rótulos distintos no discurso político contemporâneo.
O filósofo também descreve o cálculo racional por trás da adesão aos movimentos autoritários contemporâneos: a percepção de escassez de recursos e espaço social leva apoiadores a aceitar hierarquias excludentes, contanto que suas posições permaneçam preservadas dentro da estrutura proposta.
A discussão levantada por Safatle integra-se ao debate mais amplo sobre como a comunidade acadêmica aborda a evolução conceitual do fascismo em vez de congelá-lo em sua manifestação histórica específica, movimento que pode servir tanto para obscurecer quanto para iluminar fenômenos políticos em diferentes contextos nacionais e temporais.
Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.
