Plenário recebe argumentos contrários e favoráveis a mudança na jornada
A Proposta de Emenda à Constituição que visa eliminar a escala 6×1 ocupou o plenário do Senado nesta quarta-feira (1º) em audiência pública que reuniu representantes do governo, setor produtivo e movimentos sindicais. Desde sua apresentação, a matéria aguarda análise na mesa da presidência da Casa, sob responsabilidade de Davi Alcolumbre (União-AP), há mais de trinta dias.
O embate coloca de um lado representantes de segmentos empresariais preocupados com o funcionamento econômico e de outro defensores de melhorias nas condições de vida dos trabalhadores. Grandes setores da economia — comércio, logística e manufatura — manifestaram resistência à mudança, assim como senadores de oposição que compareceram ao debate.
Custos econômicos e ganhos sociais em foco
O cerne da discordância reside sobre como avaliar as consequências da mudança. Pesquisas já realizadas sobre o tema apresentam conclusões divergentes quanto aos efeitos para o Produto Interno Bruto, inflação e desemprego. Para os empresários presentes, a negociação direta entre patrões e empregados seria mais adequada que a imposição legislativa, e alertam para possíveis elevações nos custos operacionais.
Ivo Dall’Acqua, presidente da Federação de Comércio de São Paulo, posicionou o desafio não como reduzir ou aumentar horas trabalhadas, mas como potencializar a capacidade produtiva nacional. “O problema não é o trabalhador. O problema é a produtividade da economia. Primeiro, precisamos produzir mais riqueza, depois, distribuí-la. Foi esse o caminho percorrido pelas economias que hoje servem de referência internacional”, argumentou.
O ministro da Secretaria-geral da Presidência, Guilherme Boulos, refutou as previsões catastróficas. Citou estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada apontando impacto de 7,8% — magnitude similar a aumentos reais anteriores do salário mínimo. “Aumentou-se o salário e nenhuma empresa faliu. Nenhuma empresa deixou de operar, não houve desemprego. Ao contrário, nós estamos na menor taxa de desemprego da série histórica no Brasil”, destacou.
Além de garantir dois períodos de repouso semanal, a PEC reduz a duração semanal do trabalho de 44 para 40 horas, preservando a remuneração integral dos trabalhadores. Para os defensores, o benefício transcende números econômicos: a população trabalhadora sofre com esgotamento físico e mental, demandando tempo para convívio familiar, formação educacional e descanso.
Boulos reforçou o aspecto humanitário ao mencionar que 2025 registrou recorde de afastamentos por síndrome de burnout, depressão e transtornos ansiosos. No período, 4,1 milhões de pessoas se ausentaram do trabalho temporariamente por questões de saúde — crescimento de 15% comparado ao ano anterior. Problemas na coluna vertebral e hérnia de disco lideraram os motivos, seguidos por transtornos psicológicos. “Um trabalhador mais descansado é um trabalhador mais produtivo”, pontuou o ministro, citando evidências internacionais de que redução de jornada favorece produtividade.
Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, apresentou contraproposta mantendo a jornada 6×1 mas incluindo modalidade de contratação por hora trabalhada, buscando maior flexibilidade nas relações de trabalho.
A discussão ocorre enquanto a proposta permanece sob análise na presidência do Senado, com movimentações de rua em São Paulo e Rio de Janeiro pressionando a aprovação da matéria. O impasse reflete tensões estruturais entre modelos de organização do trabalho, com desdobramentos ainda incertos quanto ao calendário legislativo.
Com informações da Agência Brasil. Veja a publicação original.
